PCC Clube do Crime – II – Para crescer, facção criminosa afrouxa regra para novos filiados Resposta

PCC Clube do Crime – II – Para crescer, facção criminosa afrouxa regra para novos filiados


Presos amotinados em presídio de Cascavel (PR), em 2014, com faixas do PCC

Excelente Série Clube do Crime detalhando as atividades do Primeiro Comando da Capital (PCC), publicada pela Folha de São Paulo, edição 30ABR 2017.

1 – Facção criminosa tenta dominar presídios do país todo

2 – Para crescer, facção criminosa afrouxa regra para novos filiados

3 –  Prisão de advogados foi duro golpe e exigiu mudança de estratégia

4 – Judiciário ‘ajuda’ facção criminosa ao tratar integrante como bandido comum

5 – De olho no RJ, facção faz aliança, vira fornecedor e fortalece ação na divisa

6 – Facção criminosa oferece droga em consignação e ‘chuveirão’ na prisão

7 – Mato Grosso vira entrave em plano de expansão de facção criminosa

8 – Palco de mega-assalto, Paraguai se torna refúgio e peça-chave de facção

ROGÉRIO PAGNAN
Enviado Especial ao Rio de Janeiro, a Cuiabá (MT)
e a Presidente  Prudente (SP)

Em seus últimos instantes de vida, Mateus Almeida da Silva, 20, foi obrigado a gravar um recado em vídeo. Com as mãos amarradas para trás, com sinais de tortura pelo rosto, ele repetiu frases criadas de improviso por seus algozes. “Todos CV, sai voado de Araguaína que vai morrer tudo”, disse, enquanto olhava para a câmera com o olho direito, o único que conseguia manter aberto em razão dos hematomas. “Desculpa aí, PCC”, repetiu, antes de levar um tiro na cabeça. Depois recebeu mais duas balas no rosto.

O assassinato de Silva no final do mês passado, em Araguaína, no interior do Tocantins, é exemplo da disputa entre facções criminosas que se estende para fora das prisões em ao menos 17 das 27 unidades da federação. Seria essa, segundo integrantes do governo paulista, a continuação da guerra iniciada nas prisões no final de 2016.

Alfredo Maia – 6.jan.2017/Folhapress
Mapa da disputa

O mapa das disputas faz parte de levantamento do Ministério Público de São Paulo, que também acompanha a atual “campanha” de recrutamento de novos integrantes do PCC. Uma série de “batismos” fez saltar o contingente de integrantes fora do Estado de 3.231, em outubro de 2014, para 16.195, em março deste ano. Desse total, 4.256 foram cooptados a partir de agosto de 2016.

“E mais: eles determinaram que cada integrante fora do Estado ‘batizasse’ outro”, disse o promotor Lincoln Gakiya em seminário do Ministério Público paulista em março. “Eu projeto que nós vamos ter cerca de 30 mil integrantes até o final deste ano.”

O CV tem cerca de 9.000 seguidores fora do Rio de Janeiro, segundo estimativa da Promotoria com base em levantamento feito pelo próprio PCC antes de iniciar a guerra.

Essa estimativa é feita em cima de planilhas da própria quadrilha, apreendidas em investigações da polícia de São Paulo. Os chefes mantêm controle formal de filiados porque todos são obrigados a contribuir com o bando com o pagamento de mensalidades. A inadimplência também pode gerar punições.

REPESCAGEM

Para ser “batizado” pelo PCC, um criminoso precisa ser convidado por outro já pertencente à quadrilha, com aval de outros dois “batizados”. O nome do padrinho e o próprio nome de guerra se tornam uma espécie de RG do detento no grupo. Quem convida assume responsabilidade pelo afilhado e, também, pelos erros cometidos por ele. Um problema grave de indisciplina (como matar um colega sem autorização da cúpula) pode custar a vida de ambos.

Segundo a Promotoria, para conseguir fazer esse recrutamento em massa, uma das estratégias é reduzir as exigências dos padrinhos e, ainda, chamar de volta criminosos que haviam sido expulsos da facção por alguma irregularidade. Em São Paulo, a reconvocação pode ocorrer com aqueles que saíram nos últimos 90 dias. Já fora do Estado, não há limite de tempo.

A expansão do PCC para fora das divisas paulistas ocorre desde o final dos anos 1990, quando, em 1998, o governo de São Paulo decidiu mandar chefes da facção para outros Estados, em unidades prisionais sem isolamento de outras facções. O objetivo seria enfraquecer o bando em São Paulo, mas teve o efeito colateral de fortalecê-lo no restante do país.

Um desses Estados é o Paraná, cuja estimativa atual é de 2.426 bandidos “batizados”, o segundo maior contingente de criminosos ligados a Marcola. Só perde para São Paulo, com 8.534 membros. Ambos os números são baseados nas planilhas da facção criminosa de posse do Ministério Público.

O promotor Carlos Paixão de Oliveira, de Roraima, diz que a guerra entre facções que levou à morte de 45 presos da penitenciária de Monte Cristo, em Boa Vista, desde o ano passado, também se estendeu para as ruas.

“Volta e meia, um vagabundo mata outro de outra facção na rua. Mataram um agente penitenciário e o bicho começou a pegar na noite passada [dia 26 de abril] porque deram tiro e puseram fogo numa agência bancária, puseram fogo numa delegacia, queimaram viaturas que estavam na porta. Aqui é uma coisa dos infernos. Não dá para acreditar”, disse.

Ironicamente, hoje o governo paulista, sob o comando do PSDB desde 1995, briga com o Ministério Público de São Paulo para que os chefes do PCC não sejam enviados para fora do Estado, em linha contrária aos anos 1990 e aos recentes pedidos de promotores que lidam com o sistema prisional.

Um recente embate entre a gestão Geraldo Alckmin (PSDB) e o Ministério Público deixou clara essa divergência. Os promotores querem a transferência de 16 integrantes do PCC, inclusive Marcola, para outros Estados, enquanto a gestão tucana bate o pé em linha contrária. A Folha obteve a cópia de um DVD com a gravação dessa reunião, que ocorreu em março deste ano.

“Eu só gostaria que essas pessoas [da Promotoria] ponderassem se isso está certo ou se está errado. Não é covardia de São Paulo não mandar 16, não é. Nós só não mandamos 16 porque temos certeza de que isso não vai dar certo”, disse aos promotores o secretário da Administração Penitenciária de São Paulo, Lourival Gomes.

“Se nós removermos esses presos para prisão federal, tenham a certeza de que todos os órgãos de inteligência sérios não vão saber mais nada, nada, nada. Não vão poder dominar ou controlar crime organizado e muito menos combater. É por esse motivo que pedimos a transferência de apenas quatro [ligados a mortes de agentes de segurança]”, completou o secretário.



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