IRMÃ CLEUSA – 34 ANOS DO ASSASSINATO DA MISSIONÁRIA 1

“Comprometer-se com o Índio, o mais pobre, desprezado e explorado, é assumir firme a sua caminhada, confiante num futuro certo e que já se vai tornando presente, nas pequenas lutas e vitórias… Vale arriscar-se!”

 No dia 28 de abril de 1985, Irmã Cleusa Rody Coelho , missionária agostiniana recoleta foi brutalmemte assassinada às margens do rio Paciá, na hoje demarcada Terra Indígena Caititu, em circunstâncias nunca totalmente esclarecidas. Saiba aqui um pouco dessa história, como muitas outras em Lábrea que deixaram uma sensação de impunidade:

“….O ano de 1982 foi um ano difícil para os índigenas Apurinãs ,Paumaris e demais etnias do Purus. Após décadas e décadas de massacres e vendo os recursos naturais espoliados de suas terras , eles finalmente contando com o grande apoio de entidades missionárias como o CIMI estavam prestes a ver suas terras demarcadas pelo Governo. A região onde Cleusa foi assassinada, hoje Terra Indígena sempre foi muito rica em castanhais despertando a cobiça de políticos e coronéis locais altamente preconceituosos contra os índios. Diante disso, em Lábrea, a Assembléia da Prelazia decide assumir a questão indígena como prioridade. Começavam os ataques contra os índios, invasões de suas terras, mortes, doenças os latifundiários roubavam terras com a colaboração das autoridades locais. Nesse ano Irmã Cleusa pediu para deixar as atividades no colégio e dedicar-se à causa indígena. Neste ambiente, um filho do cacique Apurinã Agostinho foi assassinado por um soldado da PM. Os Apurinãs mataram um filho desse soldado. Cleusa conseguiu que os Apurinãs se mudassem para Japiím, no rio Passiá, a mais de 30 km. de Lábrea, para evitar enfrentamentos. E nasceu uma grande amizade e respeito mútuo entre Cleusa e Agostinho, cacique Apurinã.

Contexto do assassinato:

Raimundo Podivem e Edivar, índios, acompanhados de Damásio, não índio, se esconderam do cacique Agostinho nos limites da aldeia Japiím. A entrada destes três personagens nesta região era a ruptura do acordo pelo qual nenhum branco poderia entrar nestas terras sem autorização. Acordo que havia propiciado a paz entre os Apurinãs e a polícia militar. Quando Agostinho soube do feito, pediu à Funai que lhe permitisse confiscar a colheita dos que tinham entrado sem permissão em sua área. É-lhe concedida a petição. Agostinho confiscou a colheita de castanha de Damásio, mas permitiu que os dois Apurinãs levassem o que tinham colhido. Além disso, deu permissão a Raimundo Podivem para voltar a recolher castanha em Japiím, pois ele era Apurinã, sempre que não fosse em companhia de Edivar e Damásio. Mas Raimundo Podivem entendeu que Agostinho não lhe tinha tratado bem e se sentiu relegado pelo cacique. Ao amanhecer da quarta-feira, 24 de abril Raimundo Podivem mata a tiros de escopeta Arnaldo (17 anos, filho de Agostinho) e Maria, a mãe do rapaz. Outros moradores da casa conseguiram fugir e puderam avisar a Agostinho. Este, ao voltar à sua casa viu a sua mulher e seu filho acabados a tiros. Os sepultou. Ao entardecer da sexta-feira 26 de abril, Cleusa recebia a noticia do assassinato de Maria e Arnaldo. As religiosas que moravam com Cleusa afirmaram tê-la visto assustada e muito nervosa nesta ocasião. No sábado pela manhã, Cleusa comunicou sua decisão de ir a Japiím para levar consolo ao cacique Agostinho e evitar mais mortes. As religiosas expressaram a inoportunidade desta viagem e os perigos que poderia enfrentar.

“Navegando para a morte”

Ao chegar a Japiím, Cleusa encontrou a aldeia deserta com duas novas sepulturas. Na manhã seguinte, apareceu o cacique Agostinho com os seus. Tinham se escondido na selva. Cleusa lhe recomendou permanecer na aldeia e manter a calma, porque ela iria a Lábrea para denunciar os fatos às autoridades. Cleusa e Raimundo Paulo iniciaram sua volta a Lábrea descendo o Passiá quase ao mesmo tempo em que Raimundo Podivem começava a subir o rio em sua procura. Já no dia anterior os tinha ameaçado de morte na presença de algumas testemunhas. Até que as canoas se encontraram. Raimundo Podivem era Apurinã. Um ano antes, Cleusa o tinha encontrado muito doente na aldeia indígena Arapaçú. Cleusa o levou a Lábrea e o cuidou até que se recuperasse. Cleusa o reconheceu na outra canoa e lhe fez um sinal para conversar. Mas Raimundo Podivem disparou um tiro em Raimundo Paulo. A bala lhe atingiu na região lombar.
— Joga-te na água, meu filho, tu tens filhos para cuidar, gritou Cleusa a Raimundo Paulo.
Raimundo Paulo, ferido, dormiu na selva. Conseguiu chegar a Lábrea às quatro da tarde da segunda-feira. Refugiou-se na polícia. O agostiniano recoleto Jesús Moraza (hoje bispo de Lábrea) e a missionária agostiniana recoleta Josefina Casa Grande o visitaram e ele lhes contou o que sabia. Iniciaram-se horas e dias de desconforto e aflição. Em todos existia a Esperança de encontrá-la com vida. Raimundo Paulo somente sabia que tinha sido levada rio acima por Raimundo Podivem. Moraza saiu em busca da missionária. No dia 3 de maio foi localizado o corpo. Conta Jesús Moraza:
“Me avisaram de que alguns urubus voavam por cima em círculo, portanto saí da canoa e entrei na selva, em direção às aves. Aproximadamente a cinqüenta metros descobri o corpo, parcialmente submerso. (…) Os que me acompanhavam, com medo, decidiram que voltássemos para buscar mais ajuda”.
No dia 4 de maio uma expedição (Moraza, o chefe da polícia militar com três soldados, um médico, um índio e o guia) volta onde estava o pelo corpo. Às sete da noite chegavam ao hospital de Lábrea, onde se realizou a autopsia: costelas quebradas; crânio e coluna fraturados; braço direito parcialmente separado do corpo; bala de escopeta no tórax e nas costas. A mão direita não foi encontrada. Às nove horas, Cleusa foi enterrada, devido ao adiantado estado de decomposição. “

Biografia da Irmã Cleusa:

Irmã Cleusa nasceu em 12 de novembro de 1933, em Cachoeiro de Itapemirim, Estado do Espírito Santo. Quando terminou o curso normal, deixando um futuro promissor, decidiu ingressar na vida religiosa, na Congregação das Irmãs Missionárias Agostinianas Recoletas. Irmã Cleusa foi coordenadora regional do Conselho Indigenista Missionário CIMI, em Lábrea, antes disso trabalhou em pastorais  dos menores, dos presidiários e dos pobres. Numa carta à delegada geral do Brasil, Cleusa escreveu: “Cristo é o ofendido, o marginalizado perseguido na pessoa do Menor, novamente exposto à fome e a outros danos piores. Temos de construir Fraternidade, é necessário, mas a justiça tem de estar na base de toda convivência humana”.

Fica o exemplo de seu senso de justiça e determinação por lutar pelos mais fracos. Com todo o nosso respeito e sentimentos aos familiares     – equipe VAZOS DO PURUS

Texto adaptado do site: www.agustinosrecoletos.org

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Apropriadamente, postagem sugerida por uma amiga e leitora: LU.

Um Comentário

  1. Admiro muito o trabalho das religiosas, as popularmente conhecidas “irmãs” e/ou “freiras”.
    Assim como, em vez dos padres-celebridades-globais, admiro muito o trabalho dos padres das periferias. São eles que, com as suas homilias, orientam e bem conduzem a população local.

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