Pau pequeno, pistola grande – Eduardo Bolsonaro é o típico grandão bobo , bundamole e com pinto pequeno, arma pra ele é apenas para fazer volume na região pélvica e disfarçar suas fraquezas…Por que esse valente prestou concurso para escrivão da PF – que só fica no ar condicionado cuidando da papelada – em vez de ter ingressado no BOPE e ir ser feliz trocando tiro com vagabundo perigoso? 14

Eduardo Bolsonaro cita John Lennon em defesa das armas

Parlamentar questionou o que aconteceria se o cantor estivesse armado na hora em que foi alvejado

Pleno.News – 27/09/2019 15h46

O deputado federal Eduardo Bolsonaro fez uma série de publicações no Twitter em resposta a uma matéria do jornal O Dia. Nesta quinta-feira (26), o parlamentar publicou uma foto fazendo o famigerado gesto de arma com as mãos em frente à sede da ONU. No local fica uma escultura de bronze de uma arma com um nó em seu cano. A obra Non-Violence (Não-Violência) foi feita pelo artista sueco Carl Fredrik Reuterswärd, em homenagem ao seu amigo John Lennon, morto por uma arma de fogo.

– As operações de paz da ONU acertadamente usam armas. Mas na entrada do prédio da ONU em Nova Iorque fica essa escultura desarmamentista. Como todo bom desarmamentista, eis a máxima “armas para mim, desarmamento para os outros” – escreveu na legenda da foto.

Na matéria publicado pelo O Dia, nesta sexta (27), a publicação diz que o gesto do filho de Bolsonaro foi uma forma de criticar a escultura contra a violência. Em resposta, Eduardo disse que a escultura deprecia o papel fundamental das armas na garantia da segurança, das liberdades e da paz.

Na sequência, ele fez menção ao assassinato de John Lennon e disse que o crime é usado como “pano de fundo para calar os pró-legítima defesa que ousarem falar contra”. Eduardo questionou o que aconteceria se John Lennon estivesse armado. O deputado federal ainda sugeriu que troquem a escultura por fuzis usados para garantir a liberdade dos Estados Unidos e citou a situação da Venezuela.

– As mesmas armas que o povo venezuelano clama para poder sair das garras de um narcoditador, mas não tem porque, em 2012, uma lei os desarmou. Ao menos que botem na entrada da ONU as mãos do assassino de John Lennon, pois o revólver não atirou sozinho.

Redução da letalidade policial “não é obrigatoriedade”, diz Doria 1

Reprodução

Imagem: Reprodução

Luís Adorno

Do UOL, em São Paulo

27/09/2019 13h24Atualizada em 27/09/2019 15h34

Com policiais matando uma a cada três vítimas de mortes violentas na cidade de São Paulo durante o primeiro semestre da gestão do governador João Doria (PSDB), o tucano afirmou no início da tarde de hoje que a redução da letalidade policial no estado “pode acontecer, mas não é uma obrigatoriedade”. Segundo a PM, entre janeiro e agosto deste ano, a letalidade policial reduziu de 642 para 506.

A afirmação ocorreu durante coletiva de imprensa convocada pelo governador para divulgar que houve recorde na queda de vítimas de homicídio no estado. Entre janeiro e agosto, a taxa do crime foi de 6,25 para cada 100 mil habitantes. O menor desde que o governo começou a contabilizar os dados, no fim da década de 1990.

Segundo o governador, a polícia é legalista, mas, pelas proporções do estado, reage à medida em que a criminalidade atua. “A polícia de São Paulo tem a orientação clara de obediência aos protocolos, tanto a militar quanto a civil. Com uso progressivo da força”, afirmou. “Naturalmente, na proporção, o índice de letalidade ocorre, lamentavelmente na circunstância de pronta resposta”, complementou.

João Doria voltou a afirmar, à exemplo do que dizia na campanha, que, entre a vida de um criminoso e a de um policial, o governo ficará ao lado do policial. “Mas nós somos legalistas. Somos da paz. Não queremos a violência, atuamos com inteligência”, disse.

O comandante geral da PM (Polícia Militar), coronel Marcelo Vieira Salles, que já havia contrariado Doria no ano passado, quando o tucano afirmou que a polícia iria “atirar e atirar para matar”, voltou a argumentar que nenhum policial sai de casa e vai para o batalhão para matar ninguém.

“É o que desejamos? Claro que não. A opção do confronto é do infrator. Estamos atuando onde precisa, com os meios necessários. A primeira orientação é proteger as pessoas. A segunda, seguir a lei. Somos legalistas. Ninguém sai de casa para matar”, disse o comandante-geral.

Ainda de acordo com o coronel Salles, em agosto de 2018, houve 55 mortes através de intervenção policial. No mesmo mês deste ano, foram 31. “O infrator da lei resolveu se entregar. A PM atuou e não houve reação. Ninguém tem como objetivo a morte. Esse mes, estamos com 44% a menos referente ao mesmo mês do ano passado. No acumulado do ano, até agosto, no ano passado foram 642. Até ontem, neste ano, 506”, disse.

Já o delegado-geral da Polícia Civil, Ruy Ferraz Fontes, complementou que a ação policial de inteligência, com prisões de criminosos, colabora com a redução na letalidade no estado, no acumulado entre o ano passado e este ano.

O general João Camilo de Pires Campos, secretário da SSP (Secretaria da Segurança Pública), que havia falado, pouco antes de assumir a pasta, em “adestrar o policial” para coibir erros acompanhou os chefes das polícias civil e militar para avaliar a letalidade policial no estado.

“Há princípios na segurança pública. Precisamos identificar onde estão ocorrendo os problemas. Depois, ter a presença seletiva. Com crimes ocorrendo, há uma possibilidade de confronto. Não desejamos, mas ocorre. Se houver o confronto, existe a probabilidade de uma morte, ou do lado deles ou do nosso. O policial sai para policiar, mas infelizmente acontece”, afirmou.

Especialistas criticam discurso de Doria

Renato Sérgio de Lima, presidente do FBSP (Fórum Brasileiro de Segurança Pública), criticou a posição de João Doria. “A voz do governador não pode ser de relativização do excesso de uso da força. O controle não joga contra a polícia, mas a fortalece”, disse.

A diretora-executiva do FBSP, Samira Bueno, complementou que “a declaração do governador demonstra que, assim como o Bolsonaro, ele não está preocupado com a redução da violência e sim com a reprodução de uma política pautada na vingança. Reduzir o número de mortes violentas deveria ser sempre um objetivo a ser perseguido por qualquer governante”.

O professor de gestão pública da FGV (Fundação Getúlio Vargas) Rafael Alcadipani também disse que “é lamentável que o governador do estado se comporte dessa maneira. Como chefe das polícias, ele deveria ver a letalidade como problema. Porque é um problema grave, que mostra uma atuação pouco profissional”.

Segundo o especialista, “o governador fica num jogo ambíguo. No caso da menina Ágatha, morta no Rio, ele diz que a polícia não tem que ser letal. Depois, defende a letalidade. Ele fica nessa dança das cadeiras, nadando conforme a onda”.

O ouvidor das polícias de São Paulo, Benedito Mariano, afirmou que não contra-argumenta discursos do governador, mas que “é prioridade da Ouvidoria da Polícia a diminuição da letalidade policial e a valorização profissional, que não são objetivos antagônicos”.

Imprensa dá grande destaque às causas dos suicídios de policiais subalternos na Polícia Militar e Polícia Civil – São eles: estresse inerente à função policial; falta de suporte de serviço de saúde mental; depressão; conflitos institucionais; conflitos familiares e problemas financeiros; isolamento social, rigidez e introspecção; subnotificação de tentativas de suicídio; e fácil acesso a arma 2

Para especialistas, o volume de suicídios acende um alerta sobre a necessidade de as corporações prestarem melhor assistência à saúde mental dos agentes
O órgão chama a atenção para a alta taxa de suicídio entre policiais, que é de 23,9

Divulgação

O órgão chama a atenção para a alta taxa de suicídio entre policiais, que é de 23,9

O número de policiais que cometeram suicídio no Brasil em 2018 (104) foi maior que a quantidade que morreu em decorrência de confronto nas ruas (87), enquanto estavam em serviço. Para especialistas, o volume de suicídios acende um alerta sobre a necessidade de as corporações prestarem melhor assistência à saúde mental dos agentes. O estresse inerente à função policial e conflitos institucionais, como assédio moral, são apontados pela Ouvidoria da Polícia de São Paulo como fatores que, em conjunto com outros, podem contribuir para essas mortes.
A Ouvidoria divulgou nesta quarta-feira, 25, um relatório em que analisa os suicídios de policiais cometidos no Estado de São Paulo em 2017 e 2018 – os dados nacionais são do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, divulgados neste mês. O estudo paulista compila os registros para detalhar informações como o perfil da vítima, além de ter conversado com parentes e amigos para entender o contexto em que a morte aconteceu. O órgão chama a atenção para a alta taxa de suicídio entre policiais, que é de 23,9, enquanto no total da população o número é de 5,8 por 100 mil habitantes.
Os números mostram que o suicídio é a principal causa de morte dos policiais civis paulistas, superando as mortes decorrentes de confronto em serviço e de folga. Na Polícia Militar, as autolesões fatais representam a segunda maior causa de morte, atrás dos assassinatos sofridos na folga, mas à frente dos óbitos ocasionados por confrontos em serviço. “A pesquisa aponta que há necessidade de ampliar o suporte à saúde mental dos policiais em São Paulo”, disse o ouvidor, Benedito Mariano. O jornal O Estado de S. Paulo mostrou neste mês que, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), mais de 90% dos casos de suicídio estão associados a distúrbios mentais e, portanto, podem ser evitados com o tratamento certo.
O estudo paulista elenca oito fatores que, em conjunto, podem contribuir para esses casos. São eles: estresse inerente à função policial; falta de suporte de serviço de saúde mental; depressão; conflitos institucionais; conflitos familiares e problemas financeiros; isolamento social, rigidez e introspecção; subnotificação de tentativas de suicídio; e fácil acesso a arma.
Os pesquisadores destacam que, corriqueiramente, os pensamentos suicidas estão associados a problemas da saúde mental, como depressão. Mas é o estresse inerente à função policial que é citado com destaque nessa lista de fatores. “O policial deve começar a lidar com isso já na academia e tem de existir um programa que o acompanhe ao longo da carreira. Não adianta só dar viatura, armamento e uniforme e não cuidar da saúde mental”, apontou Mariano.
A psicóloga Beatriz Brambilla, do Conselho Regional de Psicologia de São Paulo, reforça que não é uma única dimensão que produz a motivação das vítimas. “A ideia do multicausal é que se possa compreender o fenômeno na totalidade. Então a pessoa que está em sofrimento não está assim por uma questão interna ou porque ela tem uma fragilidade ou inadaptação. Temos de compreender que há questões que são do sujeito, mas que há questões sociais.”
Resiliência
O soldado Antônio Figueiredo Sobrinho, de 56 anos, tinha três anos e meio de carreira na Polícia Militar quando reagiu a uma tentativa de assalto no comércio onde realizava um “bico” de segurança. Correu atrás do assaltante, mas não percebeu que um comparsa estava nas suas costas. Foi baleado e ficou paraplégico
Acostumado à ideia de ser um herói para os filhos e de prover a sua família, viu-se muito abalado depois do caso, pois se enxergava como um fardo para os que tentavam ajudá-lo a se adaptar e a vencer as barreiras. “Por duas vezes tentei suicídio Coloquei a arma na cabeça e o dedo no gatilho. Não queria mais viver porque pensava que meus filhos não precisavam de um pai aleijado”, disse ao jornal.
Desistiu da ideia e trilhou o caminho contrário, passando a ajudar aqueles que enfrentavam os mesmos problemas que ele. Sobrinho ajudou a criar a Associação de Policiais Portadores de Deficiência, que conta hoje, segundo ele, com mais de 23 mil associados. Lá, uma série de serviços é oferecida, de doação de cadeira de roda à assistência psicológica. “Fazemos um trabalho de integração daquele policial de volta à sociedade.”
Em nota, a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo disse que as recomendações da Ouvidoria (mais informações nesta página) serão avaliadas pelas áreas técnicas da pasta. Disse que as polícias do Estado “contam com sistemas de apoio e atendimento psicológico aos seus agentes”. Além disso, a Corregedoria e a Academia também oferecem atendimento psicológico aos agentes. “Sempre que necessário, os casos são encaminhados ao Departamento de Perícias Médicas do Estado (DPME) para avaliação.”
Presidente do Conselho Federal de Psicologia, Rogério Giannini disse que a reflexão sobre a saúde mental do policial beneficia a corporação e toda a sociedade. “A pesquisa de certo modo contribui com a ideia de humanização da polícia. O policial é um ser humano que tem as vicissitudes de qualquer ser humano.”
Frustração
A auditora fiscal do trabalho aposentada Maria Aparecida Almeida Dias de Souza, de 70 anos, ainda reflete sobre as razões que levaram a irmã, a delegada Maria Cássia Almeida Almagro, a tirar a própria vida, em julho de 2015, aos 54 anos. “Podem ter havido outros motivos, mas é certo que havia uma insatisfação muito grande com a profissão. Ela vivia uma frustração de não poder realizar aquilo que achava que devia fazer.” A delegada foi encontrada morta em sua casa, em um condomínio de Sorocaba, com ferimento à bala. A perícia indicou que ela havia se suicidado.
Maria Aparecida conta que a irmã enfrentava problemas familiares, pois seu segundo casamento havia terminado e o único filho tinha se mudado para os Estados Unidos. No dia anterior à morte, Cássia esteve na casa da irmã e falou de um curso que estava fazendo na área policial. “Ela não demonstrou nada, estava feliz, cheia de planos.”
A presidente do Sindicato dos Delegados de Polícia de São Paulo, Raquel Kobashi Gallinati, classificou a rotina do policial civil no Estado como “estafante”. “Sabemos que a profissão internacionalmente é ligada a maior índice de suicídio. Atuamos sob pressão e tendo de gerenciar crises a todo instante em situações adversas.”
Sugestões
O relatório da Ouvidoria termina com 11 recomendações de melhorias. À Polícia Militar, o órgão recomenda a criação de mais 75 núcleos de assistência psicossocial, o que cobriria quase todos os batalhões. Hoje, são 35 núcleos.
Além disso, a Ouvidoria pede que o tema da saúde mental seja incluído nas preleções diárias das unidades e nos treinamentos. Para a Polícia Civil, o órgão recomenda a implementação urgente de um programa de saúde mental e contratação de psicólogos para a atividade.

Ponte Jornalismo – Estudo mostra que suicídio é a principal causa de morte de policiais civis; dois investigadores que sofrem de depressão criticam assédio moral, machismo e lógica violenta 4

‘O mundo desaba em você quando chega em casa’, diz policial civil que pensou em se matar

27/09/19 por Mariana Ferrari

Estudo mostra que suicídio é a principal causa de morte de policiais civis; dois investigadores que sofrem de depressão criticam assédio moral, machismo e lógica violenta

Fachada do Edifício Palácio da Polícia Civil, no centro histórico de SP | Foto: divulgação/PCSP

Há pouco mais de 15 dias Ana Paula* diz que consegue, ao menos, voltar a viver. Durante os últimos três meses e meio, a investigadora de polícia de 40 anos chegou no limite do que pode ser considerado emocionalmente suportável. Quando entrou na Polícia Civil, há cinco anos, Ana Paula não imaginou que seria afastada dos trabalhos por depressão e pensamento suicida. O trabalho tornou-se pesadelo por uma série de fatores exaustivos dentro do distrito de polícia. Ana Paula não entrou para as estatísticas de suicídios, porque procurou ajuda e está afastada do cargo de investigadora.

De acordo com a pesquisa “Uma análise crítica sobre suicídio policial”, feita pela Ouvidoria de São Paulo em parceria com os Conselho Federal e Regional de Psicologia, só entre 2017 e 2018, 78 policiais cometeram suicídio em São Paulo. Desse total, 17 eram da polícia civil.  A Organização Mundial da Saúde adverte que a situação é considerada epidêmica a partir de 10 suicídios para cada 100 mil pessoas. Na polícia civil, a taxa chega a 30, ou seja, um número três vezes acima do recomendado, já que a corporação conta com 28 mil policiais.

Ana começou a adoecer quando chegou no ápice do seu sonho. Depois de passar pelo setor administrativo do IML (Instituto Médico Legal) e pelo cargo de escrivã, ela conquistou o ofício de investigadora de polícia. Dentro dos distritos, ela ficou assolada ao saber que durante os plantões faltava água e papel higiênico. Da escassez material veio o assédio dentro do ambiente de trabalho. Ana Paula chegou ao ponto de ser transferida de delegacia depois de recusar um pedido que colocava a sua própria segurança em risco. Esse caso específico Ana chama de “a gota d’água”.

O caso aconteceu quando o distrito em que Ana trabalha estava sem sistema. Um caminhão havia derrubado os cabos de internet da região. Ela estava de plantão, de 12 horas, junto com o delegado e o escrivão. “Naquele dia tinha o caso de uma violência doméstica. E a mulher estava visivelmente machucada. Não tem como retornar depois para fazer o B.O. Não dá”, explica à Ponte.

O delegado, que tem a voz máxima dentro da delegacia, repassou a seguinte ideia: Ana Paula deveria pegar a viatura caracterizada, conduzir o escrivão até outra delegacia com sistema, retornar ao seu distrito e depois de um tempo voltar para buscar o colega de trabalho. A investigadora negou a proposta, para ela não existia a menor possibilidade de dirigir uma viatura caracterizada sozinha e colocar sua segurança em risco.

“Se você se depara com uma ocorrência em andamento, você vai fazer o quê sozinha? Se atentam contra a viatura? Você tomou um tiro, você pedir apoio? Então, na minha negativa eu falei: ‘Não, é perigoso’”, relembra.

O delegado entendeu que Ana não estava se protegendo e, sim, mostrando uma possível fragilidade feminina e respondeu: “Ah, se mulher não dirige viatura sozinha, então tem que ser comunicado que não dá para trabalhar com mulher em plantão”. Para ela, “o machismo afeta o homem, porque se ele não for ele é frouxo.”.

A pesquisa divulgada pela Ouvidoria mostra que a principal causa de morte entre os policiais civis é o suicídio. Essa mesma polícia não tem programa de saúde mental. “As instituições precisam entender o apoio à saúde mental dos policiais não como custo, isso é um investimento do trabalho”, enfatiza o ouvidor Benedito Mariano.

Estresse inerente à função, transtorno pós-traumático, falta de suporte psicológico, depressão, conflitos internos da corporação, problemas financeiros e familiares, rigidez e isolamento social são, para Mariano, as principais causas de suicídio entre os policiais.

Alexandre Félix Campos, investigador e militante do movimento Policiais Antifascistas, vai um pouco além na questão de saúde mental dentro da Polícia Civil e critica os nortes que, segundo ele, guiam a segurança pública brasileira: a militarização e a criminalização. “Policial não tem que agir no combate ao inimigo. A polícia é uma parte integrante da gestão da cidade. A polícia tem que atuar como cidadão. Garantindo os direitos alheios e os seus direitos. Infelizmente essa não é a nossa realidade. A nossa realidade é uma simulação de guerra”, pontua à Ponte.

Alexandre Félix Campos demorou 15 anos para entender que estava doente e precisava de ajuda | Foto: arquivo pessoal

Foram necessários 15 anos trabalhando como policial para Alexandre entender que estava doente e precisando de ajuda. O sonho que ele almejava desde pequeno passou a confrontar valores dos quais ele mesmo fazia parte. Filho de pai motorista e mãe dona de casa, o investigador não conseguia entender como alguém com as mesmas características que as suas era considerado inimigo do Estado.

“Eu venho da periferia de São Paulo, sou do extremo leste, do bairro de Guaianazes. E essa política de segurança pública entende que eu devo combater, exterminar um inimigo e esse inimigo, que eles inventam, é exatamente o cara que nasceu no mesmo bairro que o meu, que tem o mesmo histórico de vida que eu. Então, não tem como não adoecer”, complementa.

O correr pelo errado

Outro motivo de adoecimento, pontuado por Ana Paula, é a angústia de conviver diariamente com a corrupção e não poder fazer nada. “Alguns policiais antigos, quando você não se adequa ao meio, e aqui quando eu digo se adequar ao meio é quando você não começa a fazer parte do assédio moral e do jogo de corrupção, eles falam: ‘Ah, não. É que você não é polícia’. Não tem pra quem denunciar. Isso faz parte da polícia e isso é muito triste de se ver”, ela explica.

Ana também lembra o caso de um amigo, este da Polícia Militar. Além do trabalho como policial, que ela chama de X, que exige 12 horas de plantão, ele ainda cumpria 8 horas de um trabalho extra. Um dia, ela perguntou para ele se valia a pena tudo aquilo: “Aí ele ergueu o queixo como se ele fosse um herói, um gladiador e falou: ‘Eu tenho que fazer o meu serviço se eu não fizer a sociedade vai ficar pior’”, conta.

Para ela, está claro que projetaram nele o mito do policial herói e não trabalhador. “Ele está se destruindo, é um policial que fere direitos humanos, porque vai para a rua e se tiver oportunidade vai matar. E quem ganha com isso?”, questiona. “Pegaram uma pessoa de boa índole e transformaram em um potencial assassino.”.

A pesquisa também mostra que a maioria dos suicídios são cometidos em dias de folga o que, para Ana Paula, faz total sentido. O trabalho do plantonista exige cuidado e atenção, fazendo com que o profissional controle as suas emoções. “Quando você sai dali, aquilo tudo vem na sua cabeça. Automaticamente você senta, demora para relaxar, e aquele mundo desaba em cima de você”, explica.

Arma: objeto suicida e renda extra

De acordo com a pesquisa da Ouvidoria de São Paulo, 83% dos casos de suicídio policial, entre 2017 e 2018, foram por arma de fogo. Um objeto que, além de ser essencial para a profissão, garante uma renda extra aos policiais. Os chamados “bicos” são feitos fora do horário formal de trabalho e complementam os salários.

De acordo com o último levantamento da Secretaria da Fazendo e Planejamento de São Paulo, de 2018, as classes especiais de escrivães e investigadores da Polícia Civil têm um teto salarial de R$ 5 mil. Já na Polícia Militar, o teto salarial inicial chega a R$ 4.253,00, que condiz com a função de subtenente.

São os próprios salários que fazem os policiais usarem o armamento para serviços extras, como o de segurança particular. Acontece que quando o profissional submete a um tratamento psicológico, ele pode perder a sua arma. Ou seja, perde também a renda extra.

Nesse ponto, Rogério Giannini, presidente do Conselho Federal de Psicologia, acredita que uma polícia menos armada é um modelo a ser seguido. “Eu creio que quando nós olhamos para outras experiências de outros países, em sociedades mais equânimes, mais justas, com polícias não armadas, você tem tanto índice de violência como índices de suicídio mitigados”, explica. “A violência tem que ser exceção na sociedade e não regra”, acrescenta.

Em um dos momentos mais delicados da depressão de Ana Paula, ela escreveu um depoimento ao seu superior explicando a situação, dizendo que estava no seu limite a assumindo a vontade de se matar.

“Policiais lidam com o pior da sociedade, em todos os sentidos, e você tem um cara que tem uma arma na mão. Como você trata dessa maneira uma área tão importante?”, ela questiona.

(*) A investigadora pediu que identidade dela fosse preservada