ESTAMOS TODOS CORRUPTOS

Os colegas, preliminarmente, antes de outras providências (GREVE) buscando-se a valorização salarial e funcional, deverão, salvo melhores e abalizados entendimentos, efetuar o levantamento de todas as irregularidades e crimes funcionais envolvendo policiais e autoridades da respectiva Unidade, Secional e Departamento. Faremos AUTÓPSIA DA CORRUPÇÃO. Apurando-se os policiais que apenas fazem a recolha das propinas, de regra aqueles encostados nas chefias e assistências. Verificando-se, também, aqueles apadrinhados por políticos desonestos, etc. Cuidando-se para não se tomar uma indicação legítima por aquelas fundadas apenas no nepotismo e fisiologismo. Há as indicações políticas fundadas na justiça, ou seja, a pessoa certa no local certo, especialmente no interior do Estado. Deverão efetuar o levantamento, buscando informes junto de pessoas confiáveis, os valores das propinas eventualmente oferecidas pelas chefias das Unidades, a forma e o local da recolha, em que Delegacia ou lugar confeccionam os envelopes – caso as propinas sejam distribuídas em envelopes. Atentando-se que a divisão é feita pelas chefias, os corruptores fazem remessa da totalidade da prestação em dinheiro acertada nos recônditos. Dentro do órgão é feita à divisão cabível para o departamento, secional, município e distrito – em ordem decrescente é claro. Há também as fontes peculiares à cada Unidade. Os apadrinhados políticos recebem, rotineiramente, visitas de assessores que coletam o dinheiro para o detentor de mandato ou cargo na administração superior. As datas onde é efetuado o envelopamento e local em que é feito: Unidade, escritório, outros. Deverão coletar o mais precisamente possível o quanto cada titular recebe, todos os assistentes, seccional e diretor, claro desde que trabalhem em regiões e com superiores corruptos. O inimigo é o sistema, não as pessoas. As eventuais denúncias serão formuladas sem indicação dos nomes, visando apenas demonstrar como a corrupção afeta as nossas pretensões salariais e como ela é operada sistemática e organizadamente, também como os mais novos acabam tentados a aderir ao “envelopinho limpo” da chefia. Os diretores de Ciretran podem fazer levantamentos dos veículos de propriedade dos corruptos e familiares. Verificando-se a existência de veículos com “queixa”, possível indício de estelionato contra seguradora. Prática comum entre tais policiais. Existindo colaborador de confiança filmar e fotografar as atividades. Efetuar o levantamento do número de banqueiros e pontos de apostas, os exploradores das máquinas caça-níqueis, as quantidades de máquinas, bingos, cassinos e prostíbulos na circunscrição. Para a jogatina eletrônica há os providenciais laudos da “polícia científica”. Os desvios de verbas, de combustível, inclusive. O emprego irregular das viaturas descaracterizadas. O padrão de vida desproporcionalmente elevado de autoridades e policiais, os sinais exteriores de riquezas; veículos, embarcações, propriedades rurais, casas de praia e de campo. Além de outras informações que os colegas entenderem pertinentes, como promoções adquiridas mediante pagamento para deputados ou superiores. Todo o material deverá ser coletado até para instrução de CPI, remetendo-se, se necessário, para os partidos de oposição: no caso o PT, em face de o PSDB governar desde 1995. E neste período observar-se o recrudescimento da corrupção, principalmente de 2001 até dezembro de 2006. Posto, ainda, ser intempestivo falar-se em desfavor da atual gestão. Coletar todas as informações publicadas em desfavor dos ocupantes dos escalões superiores da Polícia, da mais remota a mais atual. Lembrando-se que o futuro do colega pode depender da quantidade de informes que dispuser. Outrossim, na Polícia todos foram responsáveis pela corrupção que se instalou: quem não põe o dinheiro no bolso, finge que não vê e negam a existência, Todos: do auxiliar de necropsia ao Governador. Todavia, não será necessário caminhar mais do que cem metros de uma Unidade, nas maiores cidades, para se deparar com um “estabelecimento criminoso”, sejam de jogos, tráfico, pirataria e desmanches etc. ESTAMOS TODOS CORRUPTOS

A GÊNESE DA COVARDIA E DA CORRUPÇÃO – A DITADURA E A DESTRUIÇÃO DO PERFIL FUNCIONAL DO DELEGADO DE POLÍCIA. 5

Entre 1964 e 1984, a ditadura destruiu a economia, institucionalizou a corrupção e fez da tortura e da execução sumária, práticas políticas. Envileceu os órgãos policiais e, principalmente, destruiu o perfil do Delegado de Polícia, até então, mais que um cargo policial: verdadeira Instituição. Não encontrando o apoio das autoridades Paulistas – elite moral e intelectual, ainda que conservadora, as quais veementemente repudiaram a criminosa perseguição de cunho ideológico, enredada pelos militares e colaboradores – aniquilaram a hierarquia mediante a nomeação, pura e simples, de homens descompromissados com os princípios do direito e justiça. Homens motivados por interesses e ambições pessoais inconfessáveis; de fácil manobra e totalmente subserviente ao grupo de poder. A quantidade dos cargos foi multiplicada; tornando a carreira heterogênea, caldeando-se humanistas com bestas, letrados com ignaros, vez que, após o golpe, pulularam as faculdades virtuais(cursos final de semana). O Delegado de Polícia de São Paulo, de elevado padrão moral e profissional, após o golpe militar foi transformado num pigmeu. Aos tronos da carreira foram guindados aquilo que de pior existia noutros quadros(guarda civil, polícia marítima, investigadores corruptos e truculentos). A “elite” policial, os mais comprometidos com a perseguição ideológica, ocupou os quadros e instalações do DEOPS, órgão que – além do prestígio político – pelas atribuições administrativas acometidas: polícia de estrangeiros, emissão de passaportes, fiscalização de navios, etc., passou a captar vantagens ilícitas. Paradoxalmente, até o golpe militar, o DEOPS era o órgão defensor da economia popular; detestado, principalmente, pelo empresariado desonesto, pelos monopólios agropecuários e pelos especuladores imobiliários(locadores de imóveis). Neste ponto da história policial o Delegado se prostrou estereotipado: “bêbados truculentos” ou “filhotes da ditadura, bem nascidos, mas intelectualmente despreparados”. O Delegado de Polícia Judiciária foi banido, dando lugar ao Delegado do governo: personificado como o operacional, o polícia de rua, bom de tiro e de “porrada”. Destes como ícone maior um mero “guarda civil truculento”, para o qual os militares deram título e poderes de autoridade policial. Desqualificados e desequilibrados, ávidos por poder e riqueza, destruíram vidas e mancharam a tradição legalista dos Delegados de carreira. A seleção para provimento dos cargos invertida: primeiramente nomeava-se na condição de Delegado de Polícia substituto; depois de dois anos, aqueles que quisessem submetiam-se às provas para efetivação na Carreira. Muitos, exercendo a função por “status” ou segundo emprego, nunca se submeteram às provas; aposentando-se, ao final, na 4ª classe, com todas as vantagens asseguradas. A formação intelectual, de 1966 a 1982, praticamente foi suprimida… um entrave, vez que o bom Delegado não podia pensar. Dos selecionados se exigia a interpretação estrita da legislação penal – rejeitando-se interpretações doutrinárias, jurisprudenciais e, especialmente, a pessoal consciência jurídica do candidato, requisitos para doutos – vedados para policiais submetidos ao comando militar. Aqueles que não contribuíram para a configuração da ideologia que o golpe aplicou, ministrando a tortura e ignorando totalmente os direitos humanos, foram perseguidos e funcionalmente postos de lado. Muitos heróis, espontaneamente, sepultaram suas carreiras, mantendo-se firmes quanto ao ideal de reprimir crimes, nunca pessoas e ideias. A maioria, entretanto, mesmo sem colocar a mão na sujeira, foi omissa: “meros subscritores de ordens de recolha”(prisões para averiguações, tolerada mediante distorcida interpretação da constituição) e dos autos e documentos produzidos pelos cartórios e pela “tiragem”. Os “contínuos e tiras engravatados” passaram a dirigentes da nova Polícia Civil; e transformando-se o Delegado de Polícia autêntico em figurante “para inglês ver”, o órgão acabou estruturalmente corrompido. Posto isto, ainda que sinteticamente, os Delegados de Polícia mais jovens – na instituição e na carreira de 1988 até a presente data, ainda que movidos por uma revolta contra a desvalorização funcional, realimentada por políticas governamentais – permanecem alheios ou indiferentes às causas determinantes do desprestígio do cargo, muito maior neste do que em outros Estados. No estado de São Paulo, parcela dos Delegados de Polícia, especialmente a maioria dos ocupantes das classes finais e funções de comando, ingressaram durante ou ao final da ditadura militar – antes de l985 – conservando-se naquele cercadinho intelectual; cujo imperativo é a auto preservação. Ainda há ranço do militarismo na Carreira e, muito, poderoso. Provavelmente estes remanescentes, muitos apenas por inconsciente cultura conservadora, sejam o maior obstáculo para que os mais novos reconquistem o perfil e reconhecimento legal como operadores do direito . As esperanças da grande maioria das autoridades estão voltadas para o Governador José Serra , político de formação humanista.