NOME AOS BOIS

13 de junho de 2007 – 21:36
Advogado ligado a jogos teve empresa ligada à propina

Investigações apontam esquema que rendia R$ 600 mil mensais a policiais
Bruno Paes Manso

SÃO PAULO – O advogado Jamil Chokr, suspeito de pagar propinas da máfia do jogo a equipes de delegacias da cidade de São Paulo, já foi investigado por subornar policiais. Chokr foi sócio-gerente da empresa de máquinas caça-níqueis Reel Token, envolvida em um esquema de corrupção que, segundo investigações do Ministério Público Estadual (MPE), rendia R$ 600 mil mensais em propinas a policiais civis de São José dos Campos.

O envolvimento da empresa de Chokr com pagamento de propinas a policiais foi investigado por promotores do Grupo de Atuação Especial Regional para Prevenção ao Crime (Gaerco) do Vale do Paraíba, entre os anos de 2002 e 2003. Um dos sócios da Reel Token, o empresário português Aires Simões Correa, e o gerente da empresa, Rafael Tepedino Filho, foram denunciados pelo MPE por corrupção ativa.

Chokr não chegou a aparecer nos telefonemas gravados durante as investigações e, por isso, não foi denunciado. Em maio de 2005, contudo, quando Correa foi depor no MPE, Chokr o acompanhou como advogado de defesa. Os promotores levantaram o contrato social da Reel Token e descobriram que, até aquela data, Chokr também era sócio da empresa. “Na época, achamos estranho o advogado de defesa ser sócio do acusado”, afirmou o promotor Flávio Albernaz.

As investigações levaram o MPE a denunciar 15 policiais da Seccional de São José dos Campos, entre eles o delegado titular, Roberto Monteiro de Andrade Júnior. Treze empresários ligados ao jogo e ao esquema de corrupção também foram alvos de denúncia.

Na época, o escândalo derrubou toda a cúpula da Polícia Civil da região, incluindo o seccional e o chefe da polícia no Vale do Paraíba (Deinter-1), Antonio Carlos Gonçalves da Silva.

Passados quatro anos do escândalo, nenhum dos policiais foi punido. O antigo seccional assumiu um posto importante, o de delegado da Divisão Policial de Portos, Aeroportos e Proteção ao Turista (Deatur). Treze policiais continuam trabalhando no Vale do Paraíba e um deles se aposentou.

A Corregedoria da Polícia Civil investigou o caso. Foram ouvidos os policiais e empresários suspeitos, que negaram as acusações. As investigações do MPE não foram levadas em conta e a corregedoria recomendou a absolvição de todos os policiais. Em um dos casos, a corregedoria aguarda a decisão do Judiciário para se pronunciar.

Repercussões
As repercussões do caso não pararam nas denúncias feitas pelo Gaerco e resvalaram no delegado-geral da época, Marco Antônio Desgualdo. Em julho de 2003, Desgualdo foi interceptado em escutas autorizadas pela Justiça conversando com um assessor, o delegado Luiz Carlos Santos, o China.

No diálogo, Desgualdo revelou que o delegado Silva, chefe do Deinter-1 e membro do conselho da instituição, estava “grampeado” pelo MPE. Ele afirmou ainda que a mulher de Silva, Geni, “foi filmada no Novotel (de São José) com bicheiros”. Disse não saber se iriam “estourar ou não” o esquema nem se daria para “contornar” a situação.

Na época, Desgualdo alegou que telefonou para China para cobrar a apuração do caso. Procurado ontem, ele não quis comentar o caso. O mesmo ocorreu com Andrade Junior.

Interdição
Oito bingos foram fechados ontem nas cidades de São José dos Campos, Jacareí e Caraguatatuba, na região do Vale do Paraíba e litoral norte paulista. A ação foi movida pelo Ministério Público Federal e pela Advocacia Geral da União. Os estabelecimentos podem ser multados em R$ 50 mil por dia, caso descumpram a interdição.

Entenda o caso

25/5 – No carro do advogado de donos de caça-níqueis Jamil Chokr, PMs encontram envelopes com dinheiro e marcação de DPs. Chokr fugia de um assalto em seu Vectra blindado. A Corregedoria investiga o caso

28/5 – Os números nos envelopes coincidem com os de distritos policiais de São Paulo. A numeração vai de 1 a 105. A Corregedoria da Polícia Militar prende um PM que teria confessado a fraude na lista com as iniciais dos DPs e nos 31 envelopes com dinheiro

29/5 – Vazamento da suposta relação de propinas pagas a distritos policiais faz as cúpulas das Polícias Civil e Militar trocarem acusações

1/6 – Um dia depois de ser citado em uma lista de supostos beneficiados com propina para não agir contra pessoas ligadas a jogos de azar, o Departamento de Polícia Judiciária (Decap) faz operação que apreende 2.204 máquinas caça-níqueis e fecha sete bingos em São Paulo

4/6 – Corregedoria da Polícia Civil pede quebra de sigilo telefônico de pelo menos 25 investigadores que chefiam equipes em distritos de São Paulo

13/06 – Grampos da Polícia Federal confirmam que Chokr subornava a polícia de São Paulo. Empresário flagrado na Operação Xeque-Mate diz em gravação que “terá de achar desculpa plausível” para lista achada com advogado

Colaborou Simone Menocchi