O delegado-geral Maurício Lemos Freire afasta três Delegados por suspeita de corrupção

Três delegados de SP são afastados por suspeita de corrupção
Por Marcelo GodoySão Paulo, 06 (AE) – O delegado-geral Maurício Lemos Freire decidiu afastar três delegados, quatro investigadores e um agente policial investigados pelo Ministério Público e pela Corregedoria da Polícia Civil sob a suspeita de envolvimento nos achaques, seqüestros, roubos e tortura praticados por policiais contra integrantes da quadrilha do megatraficante colombiano Juan Carlos Ramirez Abadía. Freire comunicou a decisão ao secretário da Segurança, Ronaldo Marzagão, que concordou com a medida.Segundo a secretaria, a decisão não significa prejulgamento e garantirá a transparência das apurações. Foram atingidos os delegados Pedro Pórrio, Irani Guedes Barros e Roberto Olmado Cônsul. Os três trabalhavam no Departamento Estadual de Investigações sobre Narcóticos (Denarc) quando integrantes do bando de Abadía foram vítimas. Pórrio é suspeito no caso em que policiais tomaram R$ 150 mil para soltar Ana Maria Stein.Ela é mulher de Daniel Braz Maróstica, que trabalhava para Abadía, mas os policiais pensavam que ela fosse casada com o traficante colombiano Henri Edival Lagos, o Pacho ou Primo, que havia deixado o Brasil assustado com a virulência e com o apetite dos policiais corruptos – meses antes, Primo havia pago US$ 400 mil de resgate depois de ser seqüestrado e espancado por um grupo do Denarc.Pórrio negou qualquer participação no caso e disse que o surgimento de seu envolvimento nas investigações se devia ao fato de alguém ter usado seu nome. “Às vezes, as pessoas fazem as coisas e jogam no colo de outra”.Na quinta-feira, o delegado foi à corregedoria da polícia entregar uma lista de nomes de policiais que levaram Ana Maria até a delegacia que ele comandava no Denarc para averiguações. Ali estava o nome do delegado Cônsul, também afastado, e os de quatro investigadores: Hélio Basílio dos Santos, André Kobaiashi Ramos, Francisco Carlos Vintecinqüe e Ricardo Morelli – todos eles foram afastados.No caso de Irani, ele é suspeito de participar do achaque de US$ 200 mil e da tomada de R$ 85 mil da venda de um carro que estavam com o bando. O último suspeito afastado é o agente do Departamento Estadual de Trânsito (Detran) Severino Amâncio da Silva, que também estaria envolvido em outro achaque a Abadía

A GESTÃO DE VÁRIOS PESOS E MEDIDAS

Governo mantém delegado acusado no cargo
SOB SUSPEITA
Gestão Alckmin diz que policial suspeito de corrupção não foi condenado e, portanto, merece voto de confiança
ALEXANDRE HISAYASU
DA REPORTAGEM LOCAL

O governo Geraldo Alckmin (PSDB) decidiu manter o delegado Wagner Giudice na direção da Divisão Anti-Seqüestro, apesar de ele ter sido denunciado pelo Ministério Público à Justiça sob acusação de crime de corrupção. O caso deve ser analisado em 15 dias pela 24ª Vara Criminal. Giudice diz que a denúncia é mentirosa.
Ontem, o delegado -que integra a elite da Polícia Civil- colocou o seu cargo à disposição. Mas o pedido não foi aceito pela cúpula da polícia de São Paulo, com respaldo da Secretaria da Segurança Pública e do gabinete do governador. A avaliação é que ele ainda não foi julgado e, portanto, merece voto de confiança.
O delegado Giudice foi denunciado na semana passada pelo promotor Gabriel Inellas, do Gecep (Grupo de Atuação Especial de Controle Externo da Atividade Policial), sob acusação de ter recebido dinheiro do professor de direito civil da USP Alcides Tomasetti Júnior para não indiciá-lo no inquérito policial que investigou a morte da mulher dele, a procuradora do Estado Denise Piovani, em dezembro de 1996.
O processo sobre a morte de Denise ainda tramita na Justiça. Em agosto de 2002, a Promotoria decidiu impronunciar (não levar a júri) o professor Tomasetti, por falta de provas. Os advogados da família da vítima recorreram ao Tribunal de Justiça, que ainda não julgou o caso.
O professor alega que sua mulher se suicidou, mas acabou indiciado sob acusação de homicídio pelo delegado Eduardo Camargo Lima, que substituiu Giudice. Tomasetti não foi localizado pela Folha. O seu advogado, Eduardo Carnelós, segundo a funcionária de seu escritório, não comentaria o caso porque está viajando.
Também foram denunciados pela Promotoria por crime de corrupção o perito Paulo Villa Hutterer e o ex-escrivão Marcelo Rodrigues Dantas. O primeiro disse, por meio da assessoria da Secretaria da Segurança Pública, que não comentaria o caso. Rodrigues Dantas não foi localizado pela reportagem. Os dois eram subordinados de Giudice na época das investigações.
Contas bancárias
O Ministério Público diz que o delegado tinha movimentação bancária incompatível com seu salário durante o caso. Segundo o promotor Inellas, quantias correspondentes a valores que saíam da conta de Tomasetti Júnior apareciam nas dos acusados.

O promotor Inellas afirma ainda na denúncia que, em virtude da corrupção ativa cometida por Alcides Tomasetti, do suborno, das vantagens pecuniárias indevidas, recebidas continuamente, o delegado de polícia Wagner Giudice, aos 14 de julho de 1997, adquiriu para si o apartamento designado pelo preço de R$ 36.291″. O imóvel fica no bairro do Paraíso, na zona sul da capital paulista. Segundo o promotor, foram analisados os extratos bancários e as declarações de imposto de renda do delegado da Divisão Anti-Seqüestro. “São quantias incompatíveis com o seu salário”, disse.
A Folha procurou o governador para comentar o caso. Sua assessoria disse que o secretário da Segurança Pública, Saulo de Castro Abreu Filho, falaria sobre o assunto. A secretaria divulgou nota oficial e escalou o delegado-geral Marco Antônio Desgualdo para falar com a reportagem. “Não vou pré-julgá-lo”, afirmou Desgualdo.
Desgualdo confirmou que foi procurado por Giudice. “O melhor a fazer é aguardar a decisão da Justiça até para saber se não houve precipitação na denúncia.”
“Ele é da minha confiança”, diz chefe da polícia
DA REPORTAGEM LOCAL
O delegado-geral Marco Antônio Desgualdo afirmou ontem à Folha que não irá “pré-julgar” o delegado Wagner Giudice por causa da denúncia oferecida pelo Ministério Público.
“Ele é um excelente profissional e está comandando uma série de investigações importantes. O caso ainda é uma denúncia que está sendo analisada pela Justiça e temos de aguardar a decisão final. Não seria correto afastá-lo nesse momento. Ele é um policial da minha confiança”, afirmou.
O delegado-geral contou que deu conselhos para Giudice lidar com a situação. “Isso faz parte da vida da polícia. Ele tem de saber lidar com isso”, disse Desgualdo.
Em nota oficial, o secretário de Estado da Segurança Pública, Saulo de Castro Abreu Filho, ratificou as afirmações do delegado-geral sobre a denúncia contra o delegado Wagner Giudice.
Ontem, em entrevista coletiva, o promotor do caso, Gabriel Inellas, disse que tinha certeza de que há indícios suficientes para denunciar Giudice à Justiça.
As investigações da Corregedoria da Polícia Civil sobre a suposta corrupção começaram em 1997. “A denúncia está baseada em provas colhidas durante quase seis anos de investigação”, afirmou Inellas.
“É costurado de mentiras”, diz Giudice
DA REPORTAGEM LOCAL
O delegado Wagner Giudice desqualificou a denúncia do Ministério Público. “É um costurado de mentiras. Nem fui ouvido ou notificado pelo promotor durante as investigações. Soube do caso pela imprensa. Abomino tudo isso”, afirmou, em entrevista na tarde de ontem.
Giudice voltou a falar sobre o fato de, segundo a Promotoria, ter uma movimentação bancária incompatível com o seu salário. “Sempre fiz consultoria para empresas de segurança. Nunca escondi isso. Os depósitos, em razão das palestras, foram feitos em minha conta. Não seria idiota de receber dinheiro de propina na minha própria conta.”
O policial voltou a falar que o promotor Gabriel Inellas “não gosta de polícia”. “Ele tem uma série de denúncias contra policiais que acabou arquivada. O meu caso é mais um na fila. Eu tenho uma carreira grande na polícia, onde sempre trabalhei em grandes casos, como o bar Bodega, a prisão dos seqüestradores de Washington Olivetto. Ele quer tirar carona na minha condição profissional”, disse.
Cargo à disposição O delegado contou que telefonou para o diretor do Deic (Departamento de Investigações sobre o Crime Organizado), delegado Godofredo Bittencourt, e para o delegado-geral, Marco Antônio Desgualdo, para pôr o cargo à disposição. “Falei que, se estivesse envergonhando a polícia, que não hesitassem em me tirar daqui. Disseram que confiam em mim.”